24 de abril de 2024

Bicicleta, o instrumento da Paz em tempos de guerra

O papel da bicicleta em um dos maiores conflitos da história da humanidade: a Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial, que surgiu há exatos cem anos, mudou a história do homem. Muitos das “verdades absolutas” descritas em manuais militares da época tornaram-se obsoletas de um dia para o outro, em uma guerra onde a tecnologia prevaleceu sobre o soldado. Com exceção da Guerra Civil Americana, poucas foram as guerras que fizeram uso de inovações até então utilizadas por civis como a I Grande Guerra e, entre estas, a bicicleta teve papel de grande importância na logística e no transporte de soldados para a linha de frente.

Bersaglieri italianos transportando bicicletas dobráveis durante a Primeira Guerra Mundial
Bersaglieri italianos transportando bicicletas dobráveis durante a Primeira Guerra Mundial

Em uma época onde os motores a combustão eram ainda pouco confiáveis e os cavalos decaiam como arma de guerra, transportar tropas e informações entre a linha de frente e a retaguarda era questão fundamental, a bicicleta viveu uma época de ouro, por ser um meio barato e rápido de mobilização de pessoal, transporte de correio e até para gerar energia elétrica.

O uso da bicicleta no palco de guerra é anterior à Primeira Guerra Mundial. Quase meio século antes, sua capacidade já havia sido comprovada na Guerra Franco-Prussiana (1870), além de ter sido intensamente utilizada no transporte de tropas e suprimentos durante a guerra entre ingleses e Bóeres na África do Sul.

Foi nessa época que surgiram os primeiros batalhões ciclísticos na Europa. A França introduziu a bicicleta em seu Exército em 1887, seguida pela Inglaterra e pela Alemanha que não tardaram a fazer o mesmo.

Soldados britânicos na França inspecionam uma bicicleta alemã que utiliza um sistema de molas no lugar dos pneus - Foto: Henry Armytage Sanders
Soldados britânicos na França inspecionam uma bicicleta alemã que utiliza um sistema de molas no lugar dos pneus – Foto: Henry Armytage Sanders

Tecnologia de ponta – Junto ao aumento de seu uso por militares, veio também os progressos tecnológicos. A bicicleta passou a ser um laboratório sobre duas rodas, onde protótipos oscilavam entre duvidosas sofisticações (como bicicletas com armas incorporadas) a soluções realmente engenhosas, utilizadas até os dias de hoje, como as bicicletas dobráveis desenvolvidas pela Bianchi em 1912 para as tropas italianas, que incluía até um modelo com suspensão traseira, uma espécie de ancestral das modernas mountain bikes.

Neste contexto, bicicletas chegaram a ser utilizadas pela Alemanha como geradores de eletricidade movido a tração humana, que forneciam energia elétrica para a iluminação nas trincheiras.

Não se sabe com exatidão o número total de bicicletas utilizadas durante o conflito, mas especialistas estimam que nada menos que centenas de milhares foram usadas. Embora pareça uma cifra extraordinária, deve-se levar em consideração a escassa presença numérica de tecnologias militares de vanguarda, já que novidades como os aviões e carros de combate eram caros e foram pouco utilizados nos primeiros anos da guerra.

Especialistas estimam que nada menos que centenas de milhares de bicicletas foram usadas na Primeira Guerra Mundial

Bastante eficiente nos deslocamento em curtas e médias distâncias, a bicicleta se mostrou mais adequada que o cavalo em algumas tarefas, como patrulhamento e reconhecimento, e no transporte de mensageiros, já que a bicicleta não bebe água, não precisa se alimentar, não fica doente. De bicicleta, um soldado pode cobrir em um único dia mais de 120 km, o triplo de um soldado a pé.

Recrutas do exército britânico treinam com suas bicicletas - Foto: Getty Images, 1914
Recrutas do exército britânico treinam com suas bicicletas – Foto: Getty Images, 1914

Além disso, sua movimentação silenciosa criava uma imensa vantagem sobre as motocicletas. Jim Fitzpatrick, autor do livro The Bicycle in Wartime: An Illustrated History, relata como um grupo de soldados ciclistas aliados abateram dois mensageiros alemães que circulavam em motocicletas. A vantagem do silêncio.

Em uma guerra onde o desabastecimento de alimentos e combustíveis ocorria nos dois lados do front, a bicicleta foi um meio de transporte onipresente, tanto para a população civil quanto para os militares. De fato, a bike chegou a ser motivo de propaganda para o alistamento militar. Em um dos cartazes britânico da época podia ser lido: “Gosta de pedalar? Por que não pedalar em honra à Sua Majestade, o rei? Procuramos por recrutas ciclistas”.

Se por um lado milhares de soldados morreram sobre suas bicicletas (o primeiro soldado britânico morto em combate foi um ciclista em 21 de agosto de 1914), muitos devem suas vidas  rapidez das bicicletas-ambulâncias, uma espécie de tandem paralela, onde era instalada uma maca para os feridos.

O primeiro soldado britânico morto em um combate da I Guerra Mundial foi um ciclista, em 21 de agosto de 1914

A última vontade de um soldado – Entre as milhares de cartas de soldados que sobreviveram até os dias de hoje, destaca-se a do recruta britânico Joseph Ditchburn, do 2º batalhão de Durham. Era agosto de 1914 e a I Guerra tinha apenas começado, quando Ditchburn escreveu a sua mãe para lhe informar que logo estaria em combate. Pouco tempo depois, morreu. Entre suas últimas vontades registradas na carta, estava o desejo de consertar sua bicicleta: “É uma máquina muito boa e confiável”, escreveu.

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