12 de junho de 2024

Americana rompe tabu ao incentivar afegãs a andarem de bicicleta

Mulheres andando de bicicleta é algo considerado “imoral” no Afeganistão

Shannon Galpin decidiu fazer algo pelas ciclistas do Afeganistão - Foto: Justin Edmonds/The New York Times
Shannon Galpin decidiu fazer algo pelas ciclistas do Afeganistão – Foto: Justin Edmonds/The New York Times

Em novembro, Shannon Galpin pedalava sua bicicleta de marcha única pelas colinas de Cabul. Era sua décima-primeira visita ao Afeganistão, e ela estava acostumada com a vista de caravanas de camelos, tanques soviéticos abandonados e soldados varrendo o deserto atrás de minas terrestres.

Uma coisa que ela não tinha visto era outra mulher andando de bicicleta. Uma tarde, porém, um barista de um café local que, por coincidência, é ciclista amador disse a Galpin que não só havia mulheres afegãs andando de bicicleta, mas que elas haviam formado a própria equipe de ciclismo. Vestidas com calças e mangas longas, com lenços enfiados debaixo dos capacetes, elas praticavam nas rodovias antes do amanhecer em montain bikes antigas, acompanhadas pelo treinador da equipe masculina de ciclismo.

“Eu não pude acreditar”, disse Galpin, de 38 anos, ex-instrutora de Pilates em Breckenridge, Colorado. “Eu estive nas áreas mais liberais do país, e nunca vi sequer uma garotinha andando de bicicleta, que dirá uma mulher adulta.”   Para as mulheres no Afeganistão, andar de bicicleta é um tabu. O que é considerado comportamento apropriado varia de uma família e uma comunidade para outras, mas mulheres andando de bicicleta é algo “geralmente considerado imoral”, disse Heather Barr, que pesquisa o Afeganistão para a Human Rights Watch.

Na hierarquia das ofensas culturais cometidas por mulheres, o feito fica entre dirigir um carro e os “crimes morais”, que incluem fugir de casa ou ser vista na companhia de um homem que não seja da família.

Galpin, que alega ser a primeira mulher a ter andado em uma montain bike pelo interior afegão, já pedalou pelo Vale do Panjshir, uma distância de 255 km e 1.219 m verticais de terreno acidentado. Tendo também criado a organização sem fins lucrativos Mountain2Mountain em 2006 para auxiliar mulheres em zonas de conflito, ela decidiu fazer algo pelos ciclistas do Afeganistão.

Galpin planeja voltar ao Afeganistão para distribuir mais de 40 mochilas de lona com equipamentos de ciclismo para as equipes nacionais de ciclismo feminina e masculina. Os itens incluem ferramentas para bicicletas, assentos, calçados e cerca de 200 camisetas, todas examinadas para verificar a presença de anúncios de cerveja que poderiam gerar uma infração desnecessária no Afeganistão, onde o álcool é ilegal.

Para documentar o evento, Galpin vai levar outras cinco mulheres: uma fotógrafa, uma escritora, uma gerente de mídias sociais e duas cineastas, que planejam fazer um curta sobre a equipe feminina com o título Ciclos Afegãos.   Apesar de receberem ameaças de morte, muitas das ciclistas estão ansiosas para falar publicamente sobre a equipe, disse Galpin.

“Elas não são diferentes das mulheres no Afeganistão que arriscam a vida para ir à escola ou concorrer ao Parlamento”, ela disse. “Elas sabem que o único jeito de desafiar e quebrar o tabu é fazendo com que outras mulheres as vejam andando de bicicleta”.

A raiz do comprometimento de Galpin com os direitos das mulheres vem da adolescência. Ela cresceu em Bismarck, Dakota do Norte, e aos 17 anos treinou como dançarina moderna em Minneapolis, Minnesota. Uma noite, enquanto ela andava por um parque vazio no centro, ela foi estuprada e esfaqueada diversas vezes por um homem que surgiu das sombras.

Depois do ataque, Galpin parou de dançar e voltou para Dakota do Norte. Com exceção da família e dos amigos próximos, ela não contou a quase ninguém que havia sido estuprada até 2009, quando ela falou sobre a Mountain2Mountain no programa de TV Dateline NBC.

“Durante anos eu morria de medo de ser definida como uma vítima”, disse ela durante uma visita a Nova York, em março. “Eu não percebia que a vitimização poderia também ser uma fonte de força”.

Galpin passou a maior parte da casa dos 20 anos na Europa e no Líbano, trabalhando como treinadora de atletismo. Enquanto morava na Alemanha, ela se casou com um engenheiro britânico, e os dois acabaram se mudando para Breckenridge, onde tiveram uma filha, Devon, em 2004.

Mas Galpin ficou agitada no Colorado. Não muito tempo depois de ter chegado, seu casamento desmoronou. Então, sua irmã, que é 10 anos mais nova, relatou ter sido estuprada na faculdade. Galpin fundou a Mountain2Mountain como resposta. “Parece clichê, mas eu queria fazer do mundo um lugar melhor para minha filha”, disse ela.

Galpin fez sua primeira viagem ao Afeganistão em 2008. Desde então, a Mountain2Mountain construiu um heroico centro de reabilitação para mulheres e laboratórios de informática para escolas para meninas em Cabul, entre outros projetos.

O Afeganistão tem 45 ciclistas mulheres habilitadas entre três categorias: júnior, sub-23 e elite, de acordo com a União Ciclística Internacional, o órgão mundial de ciclismo, ou UCI. Algumas dessas ciclistas participaram do campeonato asiático de ciclismo em Nova Déli, em março, embora quatro delas não tenham conseguido finalizar a prova.

“O fato de elas estarem na linha de largada já é um tipo de vitória”, disse Dominique Raymond, diretora das Federações Nacionais e Confederações Continentais da UCI. Galpin disse que as atitudes atuais em relação às ciclistas no Afeganistão não são tão diferentes das que existiam nos Estados Unidos no final dos anos 1800.

“As mulheres eram frequentemente consideradas promíscuas se andassem de bicicleta nas ruas”, disse ela.

Sue Macy, autora de Wheels of Change: How Women Rode the Bicycle to Freedom (Rodas da mudança: como as mulheres pedalaram até a liberdade, em tradução literal), um livro sobre o papel da bicicleta nos direitos das mulheres, disse que a popularidade repentina das bicicletas “seguras”, em oposição às traiçoeiras e “ordinárias” bicicletas de rodas altas, no começo de 1890, mudou o modo como as mulheres se vestiam e se relacionavam com o mundo.

“Já que elas não podiam usar saias com armação e corpetes na bicicleta, elas começaram a usar roupas bifurcadas, como ceroulas”, disse ela. “Ao invés de arrumar um pretendente na sala de estar, elas começaram a pedalar por aí e a conhecer pessoas sem supervisão”.

Galpin espera influenciar mudanças parecidas no Afeganistão, onde as atletas fizeram avanços substanciais. As mulheres representaram o Afeganistão nas Olimpíadas pela primeira vez nos Jogos de 2004 em Atenas, Grécia, quando Fariba Rezayee competiu no judô e Robina Muqimyar, na corrida de velocidade dos 100 m.

Ano passado, Sadaf Rahimi recebeu um convite para lutar boxe nos Jogos de Londres, a primeira vez que o esporte foi aberto para mulheres. (A Associação Internacional de Boxe mais tarde revogou o convite pelo motivo de que as boxeadoras superiores representariam um risco à segurança de Rahimi, que tinha 19 anos.)

Salma Kakar, de 16 anos, ciclista da equipe feminina afegã, recentemente anunciou sua intenção de sacudir a bandeira do Afeganistão nas Olimpíadas. Para que isso aconteça, Raymond disse, a equipe precisaria começar a acumular pontos no ranking nacional da UCI, ganhos através de eventos como a Copa Mundial de Ciclismo de Estrada Feminino e Campeonatos Continentais.

Se as afegãs não se qualificarem durante a competição, elas também poder se qualificar para bolsas de estudos através da Solidariedade Olímpica Internacional, que ajuda países necessitados a desenvolver seus programas de esportes.

O primeiro passo, é claro, é ter o equipamento apropriado. “A empresa de acessórios para bicicletas Giro doou um monte de capacetes e calçados”, Galpin disse, “mas as garotas precisam de dinheiro para treinar, para viajar até as corridas e para pagar treinadores que possam lhes ensinar coisas básicas como pedalar em bando”.

“Depois que todas elas tiverem terminado uma corrida”, disse ela, “elas poderão começar a tentar ganhar uma”.

Fonte: R7

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